segunda-feira, 19 de julho de 2010

O grande jogo VI

Publiquei no outro blog um post contendo minhas considerações sobre o posicionamento de Demétrio Magnoli acerca da relação entre o Ocidente e o Islam.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

The consolation of philosophy IV

Um benefício colateral da leitura desse belo livro foi o incremento da evidência de que o homem medieval não era ignorante sobre a posição do homem no universo. A opinião contrária é apenas um mito iluminista. E emprego a palavra "mito" no sentido pejorativo.

"Então eu disse: 'Sabes que a vanglória deste mundo teve bem pouca influência sobre mim; contudo, desejei os meios para dispor as coisas de tal forma que a virtude não envelhecesse em silêncio'. 'Sim', disse ela, 'mas há uma coisa que pode atrair as mentes, a qual, embora seja excelente por natureza, não é levada pela perfeição aos limites extremos da virtude; tal coisa é o amor pela fama e pela reputação, por merecer o bem do próprio país. Pensa, então, sobre isso, e vê que não é senão uma coisa fútil e sem peso. Conforme aprendeste das exposições dos astrônomos, a circunferência da terra inteira não é senão um ponto, se comparada ao tamanho dos céus. Ou seja, se comparas a terra ao círculo do universo, ela deve ser reconhecida como desprovida de qualquer tamanho. E nessa minúscula porção do universo não há senão uma quarta parte, segundo aprendeste da demonstração de Ptolomeu, que é habitada por seres vivos conhecidos por nós. Se dessa quarta parte subtraíres tudo quanto é coberto por mares e pântanos, e todas as vastas regiões de desertos áridos, descobrirás que foi deixado à habitação humana um espaço muito apertado. E pensas em anunciar tua fama e publicar teu nome nesse espaço, que não é senão um ponto dentro de outro ponto tão rigorosamente circunscrito?'"

terça-feira, 13 de julho de 2010

O grande jogo V

O segundo capítulo trata da complexa novela envolvendo os Estados Unidos, o Oriente Médio, Bush, a direita americana, o imperialismo, o islamismo e o terrorismo. Logo no início já se manifesta o horror de Magnoli pela direita americana e pelo Partido Republicano. O articulista sabe que há diferenças significativas entre republicanos e democratas. É verdade que ele crê erroneamente que essas diferenças são maiores hoje que nos tempos da Guerra Fria, mas a simples ciência dessa diferença já basta para colocar Magnoli acima de quase toda a esquerda brasileira.

Segundo o autor, Bush representa a síntese entre o neoconservadorismo e a "direita cristã". O primeiro grupo é composto de "intelectuais internacionalistas que reinterpretam a herança missionária da política externa americana num sentido unilateralista e imperial". A segunda é isolacionista e "guardiã fanática dos valores morais tradicionais". Sem dúvida, Magnoli tem alguma razão em contrapor as duas direitas. Mas as diferenças não o levam a gostar de nenhuma delas; ao contrário, é a semelhança que lhe repugna: "As duas faces da maioria republicana [...] distinguem-se em tudo, exceto na crença de que são portadoras de verdades absolutas". Mas que crime, não é mesmo?

Tem mais: segundo Magnoli, a América de Bush é avessa à Europa, patriótica, xenófoba e fundamentalista; acredita poder descrever a política na "linguagem do Bem e do Mal" e está em guerra cultural contra a modernidade. Traduzindo: a direita americana não é relativista em moral ou epistemologia; não simpatiza com os desvalores da modernidade, nem com a cultura irreligiosa da Europa, nem com os delírios dos globalistas; até se atrevem a ser cristãos em pleno século XXI. Infelizmente, não me parece que a verdade sobre a direita americana seja tão linda (ou horrível, conforme o ponto de vista) quanto Magnoli supõe. Mas, se eu fosse acreditar em Magnoli, passaria a venerar a direita americana.

sábado, 10 de julho de 2010

Um mundo com significado VIII

O sexto capítulo também fala muito de química, mas vai além, tratando também da estrutura fundamental das leis físicas da natureza. Trata ainda das implicações filosóficas e teológicas da cognoscibilidade da ordem natural, do princípio antrópico e do mito evolucionista de que, sendo a vida um fenômeno de fácil ocorrência, o universo deve estar cheio de seres alienígenas. São apresentados alguns argumentos interessantes sobre tudo isso, embora eu creia que um trabalho melhor poderia ter sido feito. Mas chamou-me a atenção de modo especial o tema fundamental do capítulo, que vem expresso já em seu título: Um lar cósmico projetado para o descobrimento. Num certo sentido trata-se do velho dilema proposto por Einstein: "O que há de mais incompreensível no universo é que ele é compreensível". Essa declaração não é mencionada no livro, talvez por um respeito indevido pela figura do famoso físico, mas a mim é inevitável a associação. Sempre penso que a cognoscibilidade do universo só pode ser considerada incompreensível num esquema filosófico materialista, ou então num monismo spinozista e semimaterialista como o de Einstein (escrevi sobre o pensamento religioso de Einstein aqui). O capítulo defende filosoficamente que o fato de a mente humana ser capaz de apreender as leis do universo indica a existência de um Criador. Porém, o texto vai além da pura defesa epistemológica, adentrando em uma porção de detalhes do empreendimento científico. Por exemplo, argumenta que a transparência da atmosfera terrestre a boa parte do espectro eletromagnético, assim como o fato de a radiação carregar informações sobre as condições físicas e químicas de sua fonte, indica que Deus desejava que estudássemos e compreendêssemos as estrelas e planetas. Isso me ocorreu pela primeira vez quando li Perelandra, o segundo volume da trilogia espacial de Lewis; ali, o protagonista visita um planeta todo coberto de nuvens espessas que tornam impossível a observação do céu, de modo que seus habitantes sequer tinham como suspeitar da existência de algo acima do firmamento. Agora, porém, percebo que Deus poderia perfeitamente ter disposto as leis da natureza de modo que jamais chegássemos a discernir alguma ordem por trás dos eventos cotidianos. E, no entanto, aprouve-Lhe manifestar sua glória permitindo que desvendássemos uma infinidade de segredos, do mundo subatômico aos agrupamentos de galáxias, passando pelos inextricáveis labirintos dos organismos vivos. A Ele, pois, toda a glória!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O grande jogo IV

Ainda em conexão com o tema do post anterior, o internacionalismo e o governo mundial, há um trecho do oitavo capítulo que é muito útil na compreensão de um tema abordado já no primeiro. Magnoli nos conta sobre um relatório, desenvolvido por uma comissão da ONU, no qual são apresentadas propostas para viabilizar as metas de combate à pobreza assumidas pela Assembleia Geral em 2000. O relatório constatou o óbvio: a ajuda financeira dos países ricos não é condição suficiente para a elevação do desenvolvimento econômico dos países pobres, coisa que já sabíamos a partir do exemplo de Cuba, cuja população foi empobrecendo na medida em que uma imensa quantidade de dinheiro soviético ia entrando na conta dos governantes. No caso da África, a situação é mais ou menos a mesma, mas em escala ampliada. O relatório conclui que, seja por corrupção ou por incompetência, os países miseráveis não sabem administrar suas próprias economias, de modo que a ajuda financeira só deve ser dada a "países comprometidos com padrões de gestão e programas de reformas econômicas desenhados pelas instituições financeiras internacionais". Em outras palavras, como bem percebeu Magnoli, o Banco Mundial e as centenas de ONGs vinculadas à ONU dariam dinheiro aos governos africanos em troca da abdicação, na prática, de suas soberanias nacionais.

Esse é um exemplo vívido do alcance dos pretextos usados pelas forças políticas que trabalham em prol de um governo mundial unificado sob a égide da ONU. Em um artigo do primeiro capítulo, O campo de batalha do euro, embora sem tocar no assunto, Magnoli me deu razões para pensar que o mesmo projeto está por trás da unificação monetária da Europa Ocidental. Ele cita o historiador britânico Timothy Garton Ash, que, na aurora do euro, profetizava que a iniciativa dessa unificação dividiria a Europa ao invés de uni-la, dada a ausência de um poder político central capaz de ditar os rumos da política monetária. Magnoli explica: "a União Europeia não é um Estado nacional. Falta-lhe, portanto, a base de legitimidade política para forjar consensos". Mas eu me pergunto: os criadores do euro não sabiam disso? Não acho provável que grandes políticos de alguns dos países mais importantes do mundo ignorem tal obviedade. Por que, então, insistiram nesse projeto? A única resposta que consigo achar plausível é que eles pretendiam, desde o início, usar a unificação econômica como atalho para a unificação política, dando assim, quem sabe, uma forcinha adicional ao estabelecimento futuro do governo mundial.

domingo, 4 de julho de 2010

Desintoxicação sexual

Lembro que, alguns meses atrás, alguém pediu à Norma que discorresse sobre o tema da postura cristã sobre a sexualidade, em especial com relação à questão da masturbação. Na época eu ainda não conhecia o livro Desintoxicação sexual (Sexual detox), excelente trabalho de Tim Challies que trata deste e de outros assuntos relacionados às prescrições divinas para o sexo, sobretudo aos perigos da pornografia. Escrevendo numa linguagem simples, Challies é muito sensato e franco, e não foge das questões importantes que o tema impõe. O livro está disponível para download aqui, mas o pessoal do site iPródigo publicou uma boa tradução dividida em seis partes, como se vê abaixo:

1. "Pornificando" o leito conjugal: uma introdução que expõe a natureza do problema com a pornografia, com ênfase sobre o risco que oferece para a vida conjugal, presente ou futura.

2. Libertando-se: dicas sobre como começar a se libertar do pecado da pornografia, e bons motivos para fazer isso.

3. Uma teologia do sexo: uma exposição sobre o papel adequado do sexo num ser humano espiritualmente saudável, segundo o desígnio de Deus.

4. Sexo egocêntrico: uma breve análise do sexo pervertido. Fala sobre a masturbação, o egoísmo no sexo e a pureza da mente.

5. Desintoxicação: bons conselhos para quem já é casado ou pretende se casar. Combate algumas mentiras que o mundo nos conta sobre o sexo e fornece princípios gerais que devem nortear a conduta sexual de um casal.

6. Liberdade: alguns incentivos e encorajamentos bíblicos à santidade sexual.

Recomendo fortemente essa leitura não só aos que sofrem de alguma forma a tentação da impureza sexual, mas também a todos os que precisam ajudar alguém a superar esse problema. Na verdade, acredito que a leitura será proveitosa a todos os cristãos verdadeiros. Dificilmente haverá entre nós quem nunca precisou lidar com problemas dessa ordem, ou que não possa ser solicitado a ajudar alguém a qualquer momento.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O grande jogo III

O primeiro capítulo, Heranças da Guerra Fria, traz alguns textos dignos de comentário, os quais convergem em torno das questões do internacionalismo e do governo mundial. Já deixei claro o que penso sobre isso em meus comentários ao livro Nem Marx nem Jesus, de Revel. Mas Magnoli apresenta alguns elementos soltos que se encontram, no entanto, unidos por um fio comum.

Há um interessante artigo, Uma fronteira em movimento, no qual Magnoli discute as origens da Doutrina Truman, a estratégia americana de contenção do expansionismo soviético durante a Guerra Fria. O autor deixa no ar a sugestão de que o expansionismo soviético não se deveu ao comunismo, e sim ao nacionalismo dos russos, que "sentiam-se cercados e ameaçados pela hostilidade agressiva do Ocidente, e reagiam estabelecendo esferas de influência cada vez mais largas". Não duvido que a Rússia contenha um elemento expansionista não derivado da ideologia comunista, mas aqui se manifesta uma tendência que se estende por todo o livro: Magnoli jamais critica os inimigos da América (ou dos países ricos, ou do Ocidente em geral) sem sugerir, de modo explícito ou não, que ela tem culpa pelas ações de seus adversários. É um daqueles inconfundíveis cacoetes mentais da esquerda.

De qualquer modo, considero sem cabimento a negação do caráter expansionista do comunismo. Uma das divergências mais famosas entre Stálin e Trotsky reside justamente na acusação, feita pelo segundo ao primeiro, de arruinar o movimento comunista ao abrir mão de seu caráter internacionalista. E quase todos os comunistas que conheço estão do lado de Trotsky. Sem razão, porém, visto que, embora por vias incompreensíveis aos dissidentes internos do Partido, Stálin jamais deixou de praticar uma política expansionista. Isso se deu pela via militar, como na Europa Oriental, onde, após o fim da Segunda Guerra, as tropas soviéticas se mantiveram por muito tempo depois que os americanos abandonaram a metade ocidental do continente. E se deu também pela propaganda ideológica, inclusive nos Estados Unidos, desde os anos 20.

Além disso, não devemos esquecer que o comunismo é filho do iluminismo, que não só manifestou também sua tendência expansionista por meio das guerras napoleônicas, mas também idealizou o primeiro projeto de governo mundial, engendrado no cérebro de Immanuel Kant, como Magnoli nos faz lembrar em outra parte do mesmo capítulo. E, em todas as suas críticas ao imperialismo dos neoconservadores, o autor deixa de dizer que os ideais da política externa neoconservadora são devedoras justamente à teoria trotskista, da qual são uma espécie de versão democrática.