sábado, 29 de maio de 2010

Um mundo com significado V

O trecho abaixo exprime bem o que me parece ser o principal efeito nocivo da matematização das ciências, algo que muito raramente é enfatizado pelos historiadores e filósofos da ciência, segundo tenho visto até aqui. O livro não tem referências bibliográficas, mas não posso deixar de notar uma semelhança considerável entre o que é dito aqui e a abordagem de George Steiner sobre o mesmo tema. Deste último jamais li coisa alguma, mas tomei conhecimento de suas reflexões sobre o assunto - que me pareceram, aliás, muito interessantes - graças ao meu amigo Gustavo, que resumiu bem a questão neste curto e bem escrito post, cuja leitura recomendo aos interessados.

"Darwin viu outra coisa na natureza, diferente dos campos de belos narcisos nos prados, de William Wordsworth - uma filha morta e a natureza 'rubra em presas e garras'. Não há Deus presente, ele presumiu, a não ser o deus da necessidade, uma lei fixa e elegante. Seus seguidores iriam ainda mais longe, submetendo as belezas selvagens do mundo vivo à chancela da rubrica matemática: fazendo, a todo custo, que a natureza se encaixasse na ordem matemática, reduzindo-a totalmente a números, probabilidades, taxas de mutação. Adornaram-na com vagas referências à complexidade e à teoria do caos - conversas infindáveis sobre tudo, menos sobre o organismo vivo que respira.

Para entender o que deu errado, teremos de voltar às palavras de Galileu - o pressuposto de que a matemática (para ele, principalmente a geometria de Euclides) seja tão maravilhosamente efetiva que sem sua 'linguagem [...] será impossível compreender sequer um de seus termos; sem seu auxílio, vaguear-se-á sem rumo por um escuro labirinto'. Aqui, o astrônomo e físico - maravilhado com as regularidades matemáticas que havia descoberto - permitiu que lhe fugisse a retórica. Expressou o assombroso entendimento de que a matemática é uma ferramenta efetiva para discernir a ordem da natureza, mas não é o caso de a natureza ser incompreensível sem a matemática. Esse ponto de vista, mais tarde, levou seus seguidores a crer que aquilo que não pode se resumir a expressões matemáticas não existe ou é apenas uma projeção 'subjetiva' de natureza essencialmente matemática. Em tal ponto de vista, a única linguagem significativa seria a da matemática, mas, porque nossa experiência e linguagem diárias não são governadas pela matemática, não estariam significativamente relacionadas com a realidade. Como resultado, reflexões profundas baseadas em nossa linguagem e experiência cotidianas são tidas como sem fundamento. Fora com Shakespeare, Aristóteles, Tomás de Aquino e todo e qualquer dramaturgo, filósofo ou teólogo que não fale a língua dos matemáticos! Vivam os matematicos, químicos e físicos e, depois deles, diversos agregados, cientistas sociais e psiquiatras!"

Adendo: o Gustavo também escreveu outros dois curtos e interessantes posts sobre Steiner e suas ideias: este e este outro. O amigo mencionado no primeiro sou eu.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Nem Marx nem Jesus XV

No trecho abaixo, Revel traz informações estarrecedoras sobre o lado podre da América - ou, pelo menos, um dos lados mais notoriamente podres. Essa é uma boa amostra do poder de que dispunha a esquerda radical americana já nos anos 60 - apoiada, ironicamente, por um bando de ricaços que, a julgar pela teoria marxista, seriam os principais interessados em combatê-la. No caso em questão, trata-se dos Panteras Negras, grupo devotado ao terrorismo como meio de luta contra a discriminação dos negros. O trecho mostra também o quanto a situação real do embate político americano foi distorcida pela imprensa europeia, somando assim um exemplo a mais à infindável lista de modos pelos quais os revolucionários se aproveitam dos crimes de seus próprios comparsas para caluniar seus adversários. Algo que já estamos cansados de ver aqui nesta parte do mundo... Fiquei com a impressão de que Revel era não só honesto demais para aderir à ampla campanha de difamação antiamericana empreendida pelos governos e partidos comunistas em todo o mundo (inclusive nos Estados Unidos), mas também ingênuo demais para sequer suspeitar que, por trás de tantas mentiras e distorções divulgadas pela imprensa francesa sobre a grande potência do Ocidente, pudesse haver algo além da mera burrice.

"Os Panteras Negras são extremistas que, em todos os seus programas, afirmam abertamente a intenção de praticar atentados e assassinatos políticos. De um ponto de vista revolucionário, pode-se aprovar ou não sua ação; mas, do ponto de vista do Direito, qualquer que seja a sociedade, é puro delírio qualificar de 'fascista' o fato de eles serem inculpados, pois pergunto, então, em que regime colocar bombas nos edifícios públicos não seria objeto de algum processo. Os revolucionários americanos encontram-se, de fato, numa posição ideal: beneficiam-se de todas as vantagens do sistema cujos inconvenientes denunciam... É a situação do rendimento revolucionário máximo, nomeadamente no plano da propaganda. Os efeitos, aliás, estão à vista: os Panteras desfrutam de vasta simpatia no seio do Establishment. Um dos mais célebres maestros do mundo deu, em janeiro de 1970, em seu apartamento de Nova York, uma recepção em honra aos chefes do movimento à qual compareceram personagens não menos célebres das letras, das artes e da política. Um relatório do F.B.I., em julho, deplorou que os Panteras recebam importantes fundos de ilustres doadores, grandes nomes dos Estados Unidos. Quanto ao processo dos 'Sete de Chicago', inculpados depois dos motins desencadeados por ocasião da Convenção Democrata de 1968, na Europa destacou-se sobretudo a extraordinária chuva de sanções por ofensas à magistratura que se abateu, durante as audiências, sobre acusados e advogados. Mas esquecem-se de que estes últimos adotaram a tática deliberada de recorrer sistematicamente à provocação, tratando o presidente do tribunal, Julius Hoffmann, por 'Juliette', despindo-se na pretoria, ganindo, miando e exigindo que se retirasse da parede e levasse da sala das sessões o retrato de Washington, 'esse traficante de escravos'. A tática tinha, talvez, aspectos positivos, mas não se vê o que poderia fazer o presidente senão aplicar sanções por 'ofensas à magistratura', o que, aliás, não o impediu de ser tratado como louco paranóico por largos setores da imprensa americana. Perguntaram os juristas o que fazer em tal caso. Julgar os acusados na sua ausência? Impossível, legalmente. Colocá-los numa cabine de vidro à prova de som? Difícil, tecnicamente. Como troça a esta última sugestão, um acusado se fez fotografar, por escárnio, com uma mordaça na boca e um cartaz: 'No futuro, é assim que se será julgado nos Estados Unidos', e a fotografia foi reproduzida num jornal europeu como ilustrando uma medida preconizada, assim se escrevia, pelo ministério público! Em resumo, os acusados foram absolvidos pelo júri da acusação de terem 'transposto a fronteira de um estado com a intenção de ali fomentar desordens', segundo o texto da lei que a acusação ali desejaria ver aplicada. Cinco foram condenados por agressões e ferimentos e libertados sob fiança - paga por 'generosos doadores'."

domingo, 23 de maio de 2010

The consolation of philosophy II

Ainda no Livro I, começam a aparecer lições interessantes. Após queixar-se abundantemente de sua sorte, o narrador eleva a Deus esta bela oração:

"Ó Fundador do universo cravejado de estrelas, assentado em Teu eterno trono, donde giras o céu, que rola com rapidez, e obrigas as estrelas a seguir Tua lei; por Tua palavra a lua agora brilha vivamente em toda a sua face, sempre voltada para a luz de seu irmão, e assim obscurece as luzes menores; ou agora está ela própria obscurecida, pois perto do sol seus feixes mostram apenas seus pálidos chifres. Fria sobe a Estrela da Tarde junto ao primeiro esboço da noite: é a mesma a Estrela da Manhã, que abandona a armadura que usara antes e, pálida, encontra o sol ascendente. Quando o frio do inverno desnuda as árvores, estabeleces uma duração mais curta ao dia. E, quando o verão esquenta, alteras as curtas divisões da noite. Teu poder ordena as estações do ano, de modo que a brisa ocidental da primavera traga de volta as folhas que o vento setentrional do inverno levou embora; de modo que a Estrela do Cão amadureça as espigas de milho cuja semeadura Arcturus observara. Nada quebra essa antiga lei; nada deixa por fazer o trabalho designado para si. Assim, governas todas as coisas com limites fixados; apenas as vidas dos homens recusas-te a refrear, como um guardião, impondo limites. Pois por que a Fortuna, com sua mão inconstante, distribui sortes tão mutáveis? A pena dolorosa é o pagamento pelo crime, mas recai sobre a cabeça sem pecado; homens depravados repousam em paz sobre altos tronos, e por sua sorte injusta podem esmagar sob seus perniciosos calcanhares os pescoços de homens virtuosos. Sob sombras obscuras jaz oculta a brilhante virtude; o homem justo suporta a infâmia do injusto. Eles não sofrem com juramentos falsos, não sofrem com crimes minimizados por suas mentiras. Mas quando seu desejo é aumentar sua força, eles com triunfo subjugam os mais poderosos reis, a quem temem os milhares do povo. Ó Tu que apertas os laços da Natureza, olha para baixo, para esta terra miserável! A raça humana é a parte vil dessa grande obra, e somos agitados pela onda da Fortuna. Dá repouso à tempestade, ó nosso Guardião, que a tudo inunda e, assim como governas o céu ilimitado, com laços semelhantes torna verazes e firmes estas terras."

Pouco depois, a Filosofia lhe dá uma bela bronca por ter falado desse modo contra a soberania de Deus. Todos já vimos isso em algum lugar:

"Então ela disse:
'Pensas que este universo é guiado apenas a esmo e por mero acaso? Ou pensas que há algum governo racional constituído nele?' 'Não, eu jamais pensaria que pode ser assim, nem creria que tão certos movimentos poderiam ser feitos a esmo ou por acaso. Sei que Deus, o Fundador do universo, supervisiona sua obra; não poderá jamais chegar um dia que me levará a abandonar essa crença como falsa.' 'Assim é', disse ela, 'e no entanto choraste agora mesmo, e só lamentaste que apenas a humanidade não tem parte nessa tutela divina; estavas firme em tua crença de que todas as demais coisas são governadas pela razão. Quão estranho! Como eu gostaria de saber como é que você se tornou tão doente, embora estejas firme num estado mental tão saudável!'"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Nem Marx nem Jesus XIV

O livro traz um capítulo intitulado Antiamericanismo e a revolução americana, dedicado, creio eu, ao mesmo assunto que, vinte e poucos anos mais tarde, resultaria num livro inteiro escrito pelo mesmo autor. O trecho que transcrevo a seguir capta bem o espírito de toda essa parte do livro, que denuncia nos esquerdistas franceses o erro de, preocupados em coar o mosquito americano, engolir repetidamente o camelo europeu. O assunto em questão é o antissemitismo. Revel narra aqui uma conversa que teve com "uma romancista de extrema-esquerda" pouco tempo depois de ter retornado de uma viagem aos Estados Unidos.

"[Ela] me perguntou em tom imperativo (a resposta não poderia deixar de ser afirmativa, na sua opinião) se persistia o antissemitismo de sempre na América. Respondi que, com efeito, sabia desde muito existir certa discriminação em vários clubes e até nalguns restaurantes, mas que nunca tivera ocasião, durante as minhas estadas, de verificar diretamente esse fenômeno. Ela contra-atacou vigorosamente, oferecendo-se para me dar uma lista de vinte ou trinta restaurantes de Nova York onde os pedidos de reservas de mesas feitos pelos que têm sobrenomes judaicos eram, dizia ela, recusados. Curvei a cabeça, retorquindo que isso era possível, embora eu não o houvesse notado. Ficamos nisso, e foi só mais tarde que me invadiu a sensação do descaramento que havia, da parte duma francesa, em fazer tais afirmações. Pois, afinal, qual a razão por que existem atualmente seis milhões de judeus na América do Norte? Apenas porque eles, ou seus pais e avós, foram expulsos da Europa pelas perseguições que lhes moveram e porque houve pogroms na Rússia, no princípio do século, na Hungria, na Romênia e na Polônia! Somente por terem existido Hitler e as leis raciais de Vichy, que fizeram grande investida contra os judeus franceses! No momento mesmo em que essa senhora me 'bicava', surgiam de novo, na França, estranhos delírios coletivos - o 'boato de Orleans', o 'boato de Amiens'; nessas cidades corria o boato de que, em lojas judias, mulheres sumiam por alçapões, tão logo entravam. A Europa bárbara, sanguinária, policial, fanática e mesquinha havia desde sempre praticado incansavelmente o antissemitismo, de todas as modalidades, da perseguição ao genocídio organizado; ela chegara, nesse campo, à verdadeira apoteose, no século mesmo em que vivemos: matara, apenas no decorrer da Segunda Guerra Mundial, quase o dobro de quantos judeus existem atualmente na América do Norte (se se acrescentarem às vitimas dos campos de morte alemães as que foram chacinadas no resto da Europa). E eu tinha ainda de ouvir uma europeia, uma francesa, fazer a acusação do antissemitismo na América, a propósito de histórias de mesas de restaurante!"

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Esses livres-pensadores são engraçados (II)

Collins escreveu uma obra anticlerical e de tons panteístas. Na Enciclopédia do protestantismo, ainda leio, em continuação ao parágrafo do post anterior:

…a obra Answer to Mr. Clarke’s Third Defence of His Letter to Mr. Dodwell (Londres, Darby, 1711) deixa entrever que, assim como Toland, Collins crê na matéria eterna e incriada.

Entendo. Quer dizer que, para Collins, precisamos urgentemente de liberdade em relação a um Deus eterno, pessoal, bondoso, gracioso e imutável, que sacrificou Seu Filho por nós, enquanto não há problema algum em ser escravo de uma pobre matéria eterna e incriada?

Esses livres-pensadores são mesmo muito engraçados!

Esses livres-pensadores são engraçados (I)

Leio na Enciclopédia do protestantismo (a sair pela editora Hagnos) esse trecho sobre Anthony Collins (1676-1729):

Em Discourse of Free Thinking [Discurso sobre a liberdade de pensamento] (1713, Londres, 1714), a ênfase de Anthony Collins não é tanto os fundamentos do livre-pensamento, no sentido estrito da expressão, mas sim do pensamento livre, baseando-se portanto na única razão da ausência de qualquer tipo de autoridade exterior. No entanto, sua defesa e sua ilustração da liberdade de pensamento não excluem a convicção de que o determinismo é universal.

Em outras palavras, Collins reclama para si e para a humanidade o direito de pensar livremente que, no mundo, ninguém pensa nem faz nada livremente.

Esses livres-pensadores são engraçados!

domingo, 16 de maio de 2010

História da mentalidade científica

Nesta postagem vou apenas listar alguns trabalhos valiosos para quem se interessa pelas origens da mentalidade científica moderna, ou seja, pelos elementos filosóficos e teológicos que, para o bem ou para o mal, exerceram influência decisiva sobre os grandes cientistas e sobre a comunidade científica em geral. A lista a seguir não está em ordem de importância, e sim na ordem em que os li. Ficarei muito agradecido se o leitor que porventura conheça outros trabalhos relevantes puder compartilhar suas sugestões comigo.

1. Christianity and the birth of science, de Michael Bumbulis: tenho vários desacordos quanto às posturas do autor (ele é evolucionista, por exemplo), mas esse longo artigo é valioso por suas informações sobre a influência da escolástica posterior e sua visão sobre a conturbada relação atual entre a ciência e a pós-modernidade.

2. De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção científica, de Pierre Thuillier: uma interessante coleção de ensaios sobre diversos elementos que resultaram em ideias científicas influentes, presentes, por exemplo, na arte renascentista ou nas posições teológicas de Darwin e Einstein.

3. A Revolução Copernicana: a astronomia planetária no desenvolvimento do pensamento ocidental, de Thomas Kuhn: o título explica a si mesmo. A despeito de equívocos quanto a certos detalhes, o livro é excelente pela abrangência e pelo tratamento não-amadorístico das questões técnicas da astronomia antiga e sua importância nos debates científicos e filosóficos dos séculos XVI e XVII. Kuhn nos apresenta aqui um ótimo exemplo histórico dos princípios gerais enunciados em seu clássico A estrutura das revoluções científicas.

4. A revolução científica e as origens da ciência moderna, de John Henry: esse pequeno livro traz uma excelente introdução ao assunto, descrevendo as principais questões atualmente debatidas pelos historiadores da ciência e fornecendo uma extensa bibliografia para os interessados em um aprofundamento.

5. Physical science in the Middle Ages, de Edward Grant: uma excelente exposição de como os pensadores da escolástica posterior anteciparam vários dos princípios da ciência pós-Galileu e, ao mesmo tempo, não romperam com a tradição científica aristotélica nos pontos essenciais.

6. Do mundo fechado ao universo infinito, de Alexandre Koyré: livro cheio de insights maravilhosos e muito bem escrito sobre a evolução do conceito de espaço em sua relação com a ciência moderna e com os sistemas metafísicos racionalistas, empiristas, neoplatônicos e neopagãos.

7. The fractal geometry of nature, de Benoît Mandelbrot: livro já bastante comentado neste blog, e cujo propósito fundamental não é histórico. Apesar disso, Mandelbrot fornece muitas pistas interessantes sobre a história da relação entre as ciências naturais e a matemática. No contexto da presente postagem, o livro tem seu valor incrementado pelo fato de que o próprio autor foi um matemático que deu enormes contribuições no campo pioneiro da geometria dos fractais, e nesse livro ele nos dá várias indicações sobre a origem de suas ideias. Trata-se, pois, da rara oportunidade de observar um gênio em ação.